CULTURA MORRE NA PRAIA

Por Marcos Fayad

Escrevo para responder às centenas indagações que já ouvi até hoje sobre o motivo de bons espetáculos goianos não conseguirem competir com o lixo cultural que vem de fora e que mesmo sendo ruim costuma entupir os teatros da cidade. É simples. Trata-se de uma coisa de que todos falam, mas que nunca é compreendida e posta em prática pelos responsáveis pela melhora e elevação da cultura em Goiás: política cultural. Para que os leitores e até mesmo alguns artistas tomem conhecimento do que nos impede de ser um Estado onde a cultura marque espaço e espetáculos sobrevivam quando são bons, invento aqui um hipotético grupo de teatro que mal sobrevive de arte neste Estado para ilustrar a situação. É preciso dizer que só é possível criar algum espetáculo se esse grupo se inscrever numa das duas leis de incentivo à cultura, a estadual e a municipal. Numa delas, a municipal, convencionou-se que a forma ideal de incentivar a arte e a cultura é distribuindo entre muitas dezenas de inscritos as aprovações que permitem aos grupos captar entre as empresas o que a lei lhes concede. Como a Secretaria de Cultura pulveriza essas concessões o que ocorre é que cada projeto (música, teatro, dança, etc…) acaba recebendo o direito de sair às ruas para buscar esmolinhas que lhes são oferecidas em solenidades onde as autoridades posam de benfeitoras. A maioria das peças de teatro recebe a concessão de captar 25 mil reais quando o espetáculo a ser realizado necessitaria de no mínimo 60 mil reais para pagar dignamente tantos profissionais envolvidos. Para não devolver o direito de captar os 25 mil reduzem todos os pagamentos e comprometem a qualidade dos cenários, dos figurinos, dos músicos porque são obrigados a cortar qualquer valor que extrapole o que lhes foi concedido.  Os políticos responsáveis pela área acreditam que pulverizando a renúncia fiscal da prefeitura agradam a um grande número de candidatos inscritos. Equivocam-se. Merecem apenas o desprezo dos artistas que receberam o que só lhes permitem realizar obras sem qualidade. Nos orçamentos concedidos não cabem nem mesmo o mínimo pra se fazer publicidade da obra, pagar teatros pra mantê-las em cartaz, assegurar a fidelidade dos artistas envolvidos que sabem que não vão mais receber nem um centavo depois da obra estreada e o espetáculo precariamente encenado infalivelmente morre na praia”. Apresenta-se uns dois finais de semana e desaparece até abrirem de novo os editais do semestre seguinte. Um círculo vicioso que ainda obriga que os grupos dêem como contrapartida pelo privilégio que receberam da lei municipal, certa quantidade de espetáculos gratuitos e algumas dezenas de ingressos gratuitos para serem distribuídos entre seus convidados e funcionários. É mais que comum ver esses ingressos gratuitos enviados aos órgãos de cultura ser vendidos nas portas dos teatros por preços mais baratos pelos funcionários ignorantes que os receberam de graça. Com a Lei Goyases é exatamente a mesma coisa, nem uma virgula  do que foi narrado acima se modifica. Se uma Cia. Teatral decide encenar um espetáculo e faz contas minuciosas para remunerar com dignidade mais de 20 profissionais envolvidos e o preço total do espetáculo custa 120 mil reais sem a mais mínima gordura orçamentária acaba recebendo da comissão que julga os projetos autorização para captar a quantia de 50 mil reais. Claro, será preciso retirar do orçamento 70 mil reais, mais da metade concedida.É importante dizer que desse total fica 10% para o captador dos recursos (isto é, 5 mil reais) e mais 2.500,00 reais para a AGEPEL (nunca soube porque) a benfeitora que autorizou a captação do que a comissão concedeu. Não importa se a qualidade da obra ficará comprometida. Ninguém está interessado em qualidade cultural, mas em quantidade de beneficiados. A comissão se arvora em autoridade artística que sabe exatamente o que é ou não necessário para a encenação do espetáculo proposto. É a comissão que sabe, não quem elaborou o projeto e que, ao final da realização dele, prestará contas com notas fiscais sobre onde e como foram gastos os valores  solicitados. O leitor compreendeu a lógica absurda e perversa de tudo isso? Como os grupos proponentes não têm nada serão sempre obrigados a aceitar qualquer quantia que lhes for permitida captar. E os espetáculos resultam no que estamos acostumados a ver todos os dias nesta cidade: obras que deveriam ser belas e bem produzidas serem feitas pelas metades e sem nenhuma perspectiva de sobrevivência futura. Por isso os grupos de fora que se apresentam aqui pagam os altíssimos aluguéis dos teatros porque sabem que lotam com estrelinhas de TV. Anulam toda e qualquer possibilidade de êxito nos empreendimentos da cultura goiana. O leitor pode se perguntar: e como é nos outros Estados? As comissões que analisam as inscrições das leis estaduais e municipais são mais bem informadas e sabem quanto se gasta pra montar um espetáculo teatral ou um DVD. E privilegiam os projetos de grupos com comprovada contribuição à cultura da cidade e Estado. Não tentam fazer politicazinha que agrade a todos, angarie votos e compromete a qualidade das obras. Não aprovam projetos pela quantidade, mas pela qualidade das propostas. Por isso é bom informar claramente aos leitores: autoridades e comissões não conhecem daquilo que julgam conhecer. Agora a lei Goyases foi cortada em 50%. Tudo piora. Quem sabe assim haja alguma reação a essa mediocridade que se esconde atrás do nome de “autoridade cultural”? Ou nos conformamos todos de criar espetáculos que, antes de estrear sabem que vão “morrer na praia” e tudo fica por isso mesmo.

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

Este texto foi publicado no Jornal O POPULAR, 12 de março de 2011, em OPINIÃO / ARTIGOS

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O Fórum Permanente de Cultura é um movimento que surgiu em Goiânia no final dos nos anos 90 e teve como principal resultado de luta a aprovação das leis de incentivo à cultura em Goiânia e em Goiás. À época, o movimento se reunia todas as terças-feiras no Centro Cultural Martim Cererê onde planejava ações políticas e exercia o debate permanente em defesa da cultura.

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