A passeata dos artistas de Goiás

1º DE ABRIL, O DIA DA VERDADE EM GOIÂNIA

Fred Noleto, músico, compositor, ator e, agora, metido a articulista

Goiânia, 1º de abril de 2011.

Na tarde desta sexta-feira, 1º de abril, um grupo de cerca de 500 manifestantes protestavam nas ruas da cidade de Goiânia. Nas calçadas a população reagia de diversas formas. Uns ficaram maravilhados, outros espantados e alguns desentendidos. Era como se fosse possível ler seus pensamentos: “é muita alegria, do quê se trata?”. Não se tratava de qualquer passeata. Era a Grande Passeata dos Trabalhadores da Cultura de Goiás. Ao receber panfleto explicativo, uma transeunte exclama: “eu não votei no Marconi!”. Ouve de imediato a resposta: “nem eu!”.

Não foi um movimento partidário. Pelo contrário. Artistas na maioria das vezes são anarquistas e mal conseguem organizar seus próprios orçamentos domésticos. O fato é que o pano de fundo – a capital de Goiás – explode em manifestações todas as semanas. Ora estudantes exigindo passe-livre, promessa de campanha do governador Marconi Perillo. Ora funcionários públicos diversos: professores da rede estadual e da sucateada e anorexa Universidade Estadual de Goiás (UEG) e funcionários da Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego).

Um dos protestos que mais chamaram atenção foi o dos médicos e demais servidores do Instituto de Assistência dos Servidores Públicos do Estado de Goiás (Ipasgo) – órgão responsável pelo pagamento de funcionários aposentados e pensionistas e que também presta serviços populares de plano de saúde. A outra manifestação foi contra o aumento abusivo do preço dos combustíveis ou contra o cartel formado entre usineiros e donos dos postos de gasolina. Esta chegou até a ter repercussão nacional. É o movimento “Mobiliza Goiás”.

A Grande Passeata dos Trabalhadores da Cultura de Goiás foi diferente das outras. A começar pela forma: alegre, festiva, poética, encantadora. Ali estava a elite cultural do estado representada em todas as suas vertentes. Eram escritores, músicos, cineastas, poetas, bailarinos, produtores, atores, representantes de ONGs, sindicatos e Pontos de Cultura, artistas plásticos, rappers, ciganos e circenses cantando e dançando em meio a belas palavras de ordem. Hashtags que poderiam (ou deveriam) facilmente alcançar o topo dos trending topics da rede Twitter. Vergonhoso é o estado que trata com tamanho desprezo os players fazedores de cultura! Ou seja, seria lindo se não fosse trágico,

“Arte é trabalho”, “Arte gera emprego e renda”, “Cultura é prioridade”, “Arte não é lixo”. Os números comprovam. Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de Goiás [Fieg] a Cultura é responsável por 1,7% do PIB do estado. No Brasil, 290 empresas culturais são responsáveis por uma massa salarial de R$ 18 bilhões [fonte: Minc.gov.br]. O estado de Goiás é a 9ª economia do país mas, no quesito gasto com Cultura está em 19º lugar no ranking, gastando apenas R$ 4 indivíduo/ano – ou 0,025% de sua receita líquida [fonte: Segplan].

A passeata dos artistas goianos foi uma mobilização do Fórum Permanente de Cultura, uma instância que existe há exatos 10 anos. Seu nome já é auto-explicativo. Não há espaço para mobilização oposicionista. Trata-se de um movimento supra-partidário. Uma espécie de “ágora”. Sem fins lucrativos. Todos tem voz, cidadãos e representantes das entidades que o fórum engloba. A intenção é que englobe todas as entidades culturais do estado, sendo uma instância superior a todas elas.

Grande parte dos artistas goianos, assim como do funcionalismo público se tornaram os maiores cabos-eleitorais do então candidato Marconi (que já havia sido governador por dois mandatos). A eles prometeu mundos e fundos. Ao funcionalismo plano de cargos e salários e adimplência. Todos sabem o que aconteceu logo após sua posse, a Assembléia Legislativa deu a ele plenos poderes. Um absolutismo de causar inveja a vários Czares, uma vez que a população caiu no conto do “é para o bem de nosso Estado”. Com isso, atrasou salários e agora paga somente 80% deles.

Aos artistas prometeu, em campanha, dobrar a verba para a pasta da Cultura. Qual foi sua primeira medida? Nomeou Gilvane Felipe, ex-presidente do Sebrae-GO (muito bem-quisto por todos) para a Presidência da Agepel (Agencia Pedro Ludovico Teixeira, órgão responsável pela pasta) – que, a partir daquele momento, passaria a ser vinculada à Secretaria de Educação. Isso já foi o o começo da inquietação de artistas e produtores locais. Em seguida, anunciou que a pequeníssima verba para a Lei Goyazes (a Rouanet Goiana) seria cortada pela metade, passando de R$ 5 milhões para R$ 2,5. Ai foi o estopim. Mal sabia ele que a Arte, quanto mais apanha, mais cresce e se multiplica.

Assim como nossa classe média, que só saiu de casa e se deu conta do tamanho do seu poder quando sentiu no bolso, a categoria artística também somente se conscientizou para a força de sua voz quando percebeu que a grana ia ficar curta. Um dia antes da passeata, fizemos um “tuitaço”. Perillo, que é “tuiteiro”, posta mensagem (e isso já foi uma vitória) dizendo que iria atender todas nossas reivindicações: a criação da Secretaria de Cultura (ligada ao Sistema Nacional de Cultura e ao Fundo Nacional de Cultura) até o mês de Agosto e que a verba da Lei Goiazes voltaria ao seu antigo maravilhoso valor de R$5 mi no próximo ano.

Parece piada de salão não é? Mas, ao menos, ao “chefe” fizemos chegar nossa mensagem, nossa voz e nossas reivindicações. Elas são históricas e o Fórum Permanente de Cultura, que é uma instância que não depende de verba governamental para sobreviver,apontou cada uma delas. Elas vão muito além de mais verbas para leis de incentivo fiscal. Eu particularmente, sou a favor da implantação de Pregão Eletrônico em todas as ações do Governo. Claro, para pasta da Cultura também. Resumindo: além de mais verbas [10% do orçamento], modernidade e transparência no “gastar” de nossos impostos.

Envio a vocês, frequentadores do “Blog do Nassif” este texto para que tenham conhecimento da real situação de nosso estado, uma vez que o Ministério Público, Tribunal de Contas, Assembléia Legislativa do Estado de Goiás e nossa imprensa não andam cumprindo seu papel fiscalizador dos poderes públicos. Uma prova disso é que nenhuma (nem uma) das TVs locais foi cobrir a passeata. Ou 500 artistas não são suficientes para que sejamos pauta, ou o “jabaculê” talvez esteja curto. [#ArtistasUnidos #ArteGeraEmprego]

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O Fórum Permanente de Cultura é um movimento que surgiu em Goiânia no final dos nos anos 90 e teve como principal resultado de luta a aprovação das leis de incentivo à cultura em Goiânia e em Goiás. À época, o movimento se reunia todas as terças-feiras no Centro Cultural Martim Cererê onde planejava ações políticas e exercia o debate permanente em defesa da cultura.

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