SEGUNDA MANIFESTAÇÃO DO “DIA DA VERDADE”


Cultura, do latim “colere”, significa cultivar. Entre os povos romanos, esse termo era comumente usado na agricultura, referindo-se ao cultivo da terra para a produção do alimento. Alimento que nos mantém vivos, a Cultura pode ter tantos significados quanto a imaginação possa criar. Em 1952, os antropólogos Alfred Kroeber e Clyde Kluckhohn apresentaram cerca de 167 definições diferentes para Cultura, mas podemos, de uma forma mais simples, definí-la como “todo o complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”.

Nessa segunda-feira, dia dois, os Artistas, Grupos e Associações Culturais que compõem o Fórum Permanente de Cultura saíram às ruas para a Segunda Passeata do Dia da Verdade. A tarde chuvosa tentava nos dizer que aquela não seria uma boa hora para estarmos ali, mas a chuva, que parecia muita para os que passavam pela praça do Bandeirante, onde nos reunimos para o início da passeata, não foi suficiente para esfriar os nossos ânimos. Quando muito, refrescou as mentes e os corpos de todos que, contrários ao infeliz motivo desse encontro, se embalavam nas batidas da bateria que não cessou, mesmo quando os suaves pingos da garoa, que persistia tarde a dentro, tiveram a ousadia de tomar a força de uma chuva de verão, digna de ventos fortes o bastante para levantar as saias das moças desprevenidas. E, nesse clima de tarde chuvosa, com poucos espectadores caminhando pelas ruas, o Cortejo seguiu em direção ao seu destino: a Secretaria Municipal de Cultura. Passando pelo Centro Administrativo, sede do governo estadual, não poderíamos deixar de dar uma paradinha para dizer que “não nos esquecemos” e que estamos de olho. Ao chegarmos na Secretaria Municipal de Cultura, o destino da manifestação, fomos logo recebidos por três viaturas da Guarda Municipal. Os guardas, que não podem portar armas de fogo, saíram das viaturas desfilando suas temidas armas “Taser”, com pose de quem espera um único movimento brusco para fazer jus ao seu salário miserável. Aqueles homens de fardas pretas, e caras de quem não está para conversa, diziam claramente, com seus olhares, que não éramos bem vindos naquele lugar. Mas eles não precisariam estar ali para sabermos disso.

O Fórum Permanente de Cultura foi a primeira entidade a denunciar os desvios de verba pública da gestão Kleber Adorno. As provas que, de longe, não são poucas, vêm se acumulando desde 2005, quando foram descobertos os primeiros desvios. Até as últimas informações que tivemos acerca do Inquérito, foram desviados, pelas cinco empresas ligadas, direta ou indiretamente, aos servidores da Secult, quatro milhões e setecentos mil reais, através de projetos como o Revirada Cultural, o Goiânia Canto de Ouro, o Segunda Aberta, o Grande Hotel Vive o Choro, o CIEMA e o FestCine nas Escolas. Em alguns desses projetos, a quadrilha fazia uso dos nomes dos artistas em falsificações grosseiras de documentos de prestação de serviços, dos quais os artistas tiveram conhecimento apenas após serem convocados para prestar depoimento na Derccap.

Fazer Cultura é pertencer a um meio, cultivando seu passado, à partir das suas raízes e gerando novos frutos pelo conhecimento do presente. Para existirmos, não basta termos consciência do “ser” que somos, mas é preciso “pertencer” ao meio, compartilhando o ser. Cultura é a transformação do meio social, recriando o novo a partir do velho, dando nova forma ao que, antes, fora formado. Sendo o homem elemento central de toda Cultura, é o produto do meio e o meio da produção, é sujeito e objeto da sua própria criação.

Ao se afastar da Secretaria, Kleber Adorno indicou, como seu substituto, o maestro Joaquim Jaime. Um velho amigo sempre presente em todas as suas gestões, o Maestro afirmou que estaria ocupando “temporariamente” a pasta, pois tinha a certeza de que o ex-Secretário voltaria a ocupá-la. Kleber Adorno, que é escritor, guarda no curriculum polêmicas no mínimo assustadoras, como o caso de “plágio” em sua tese de doutorado, que o levou a ser acusado de ter “comprado a tese”. Sua gestão foi marcada por uma ausência de diálogos com os realizadores culturais, por uma relação clientelista e pela permanência constante de um pequeno grupo de beneficiados, como o caso de Doracino Naves, que foi contemplado com três projetos na Lei Municipal de Incentivo à Cultura quando presidia a Comissão de Seleção de Projetos e, no ano seguinte, foi indicado por Kleber para ocupar a pasta em seu lugar, num continuismo vicioso e alienador, o qual não deve apenas ser combatido, mas erradicado.

Cultura é Identidade. Está presente em todos os valores de um povo, nos significados compreendidos por cada indivíduo, na leitura do seu olhar, no ton da sua fala, no seu jeito de vestir. A Cultura está impregnada na alma de cada ser social. Valorizar a Cultura é garantir a continuidade da “Marca” de um povo. Cada cidadão tem o direito e o dever de garantir a permanência e a difusão da Cultura do seu povo. O Fórum Permanente de Cultura é uma ferramenta de luta pela democratização das nossas Gestões Culturais buscando, nos três poderes do Estado Democrático de Direito, a implantação e a manutenção de novas Políticas Públicas para a Cultura no estado de Goiás. Participe você também.

Warcelon Duque

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O Fórum Permanente de Cultura é um movimento que surgiu em Goiânia no final dos nos anos 90 e teve como principal resultado de luta a aprovação das leis de incentivo à cultura em Goiânia e em Goiás. À época, o movimento se reunia todas as terças-feiras no Centro Cultural Martim Cererê onde planejava ações políticas e exercia o debate permanente em defesa da cultura.

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